Política Nacional
CEsp: debatedores discordam sobre oficialização de confederação de e-sport
Política Nacional
Os participantes do debate promovido nesta quarta-feira (9) pela Comissão de Esporte (CEsp) divergiram sobre a proposta que destina parte da arrecadação da loteria para a Confederação Brasileira de Games e Esports (CBGE).
O objetivo do encontro foi discutir o PL 6.118/2023. Esse projeto de lei inclui a CBGE no Sistema Nacional do Desporto e destina a essa entidade 0,04% arrecadação da loteria. Considerando a arrecadação da Caixa Econômica Federal com loterias em 2023, estima-se que esses recursos corresponderiam no ano passado a cerca de R$ 9 milhões.
O autor do projeto é o senador Izalci Lucas (PL-DF). O debate promovido pela CEsp foi conduzido pelo senador Carlos Portinho (PL-RJ).
O requerimento para a realização do encontro foi apresentado pelos senadores Carlos Portinho, Leila Barros (PDT-DF), Romário (PL-RJ) e Rodrigo Cunha (Podemos-AL), que é o relator da proposta.
Duas confederações
A divergência entre os participantes do debate aconteceu, entre outras razões, porque vários deles consideraram incomum o procedimento de buscar a oficialização da Confederação Brasileira de Games e Esports por lei, e não pelo reconhecimento do Comitê Olímpico Internacional (COI) e do Comitê Olímpico do Brasil (COB).
Além disso, senadores chamaram atenção para a existência de uma outra confederação do setor e para a falta de oficialização de ambas como modalidade olímpica no COB. Além da CBGE, há a Confederação Brasileira de Desportos Eletrônicos (CBDEL), que foi representada no debate desta quarta-feira por Marcelo Dalazel.
Dalazel afirmou que a CBDEL não possui interesse nos recursos da Caixa Econômica Federal e que já está em posição mais avançada em sua organização perante o COB. Já o presidente da CBGE, Leonardo Fontes do Rêgo Barros, que busca o incentivo, disse que ainda não oficializou o pleito perante o COB. Os representantes de ambas as confederações apontaram a intenção de unificação no futuro.
Advogado esportivo de formação, o senador Carlos Portinho declarou que a existência de mais de uma confederação pode gerar disputas futuras pelos recursos. Segundo ele, o processo normal é que as confederações devem primeiro ser reconhecidas pelo COB, para só então receber os valores da loteria legalmente destinados ao comitê.
— A unificação [das confederações de jogos eletrônicos] é fundamental, inclusive para o próprio andamento do projeto [PL 6.118/2023]. Pois hoje existem dois presidentes [de confederações] que querem conversar, mas “amanhã” aquele que está em tratativa para reconhecimento pelo COB não é o que vai receber o recurso, e o que receberá o recurso ainda não está em tratativa.
Atribuição do Congresso
Leila Barros questionou o papel do Congresso Nacional na oficialização de uma confederação esportiva, no lugar do Comitê Olímpico Internacional (COI) e do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Ela lembrou que foi contra um pedido semelhante feito em 2022 pela CBDEL — a qual, por meio de dois projetos de lei (o PL 11/2022 e o PL 1.779/2022), buscava os mesmos recursos da loteria
A senadora foi relatora do projeto que deu origem à Lei 14.852, de 2024, que criou um marco legal para a indústria de jogos eletrônicos. Ela ressaltou que apoia incentivos ao setor, mas argumentou que isso deve ocorrer de acordo com o processo oficial dos comitês olímpicos.
Leila enfatizou que o mercado de games apresenta faturamentos bilionários, e que os donos dos jogos são as publishers (conhecidas também como “publicadoras”, “produtoras” ou “desenvolvedoras de jogos”), que já possuem, segundo ela, uma estrutura robusta.
— Há necessidade de um segmento tão pujante receber recursos públicos diante de modalidades tão carentes? — questionou.
Representatividade
Para Leonardo Fontes do Rêgo Barros, presidente da CBGE, o financiamento a ser obtido por meio da loteria aumentará o desenvolvimento do e-sport de maneira mais representativa.
— Com […] essa verba, a gente consegue desenvolver o esporte eletrônico da maneira muito mais agressiva no Brasil, garantindo que a gente tenha representatividade e todo o processo educacional que envolve o esporte como um todo.
Ele destacou que o COI realizará um ciclo de “Olimpíadas do e-sports” a partir de 2025 na Arábia Saudita. Segundo Leonardo, a novidade já indicaria que a modalidade é um esporte olímpico. Mas, para Luciano Hostins, diretor jurídico do COB, a oficialização depende da criação de uma federação do setor no COI. Até lá, segundo Luciano, é preciso haver uma “organização sistematizada” do e-sport no Brasil.
Financiamento
Para Izalci Lucas, autor do PL 6.118/2023, o projeto busca “oficializar os jogos eletrônicos” e oferecer as condições para que haja “uma instituição que possa organizar as competições” do setor. Ele concordou com eventuais alterações nos trechos que tratam da inclusão, por lei, da CBGE no Sistema Nacional do Desporto. Mas defendeu a manutenção dos incentivos previstos para os trabalhos dos organizadores de e-sport.
Para o superintendente nacional de loterias da Caixa Econômica Federal, Rodrigo Schekiera Franco dos Santos, o percentual de 0,04% a ser repassado para a CBGE pode tornar o serviço lotérico menos atraente para os apostadores. Mas, para Izalci Lucas, a loteria não precisa ser a única fonte de financiamento.
— Qual é o recurso mais apropriado? Se a loteria está dizendo que 0,04% vai comprometer o prêmio, vamos buscar outra alternativa. A regulamentação dos bets está aí.
O sócio-diretor da Equipe Imperial Esports, Bruno Martins da Silveira Gomes Paes, afirmou que sua equipe é maior que as confederações do ramo. Por essa razão, segundo ele, a CBGE deve receber os valores. A Imperial Esports consiste em um grupo de jogadores de e-sport que competem profissionalmente.
— Hoje, a Imperial, a Fúria ou a Loud [“clubes” de e-sports], por incrível que pareça, acabam sendo maiores que as confederações. O que se propõe aqui é a gente catapultar a confederação de forma que todos caminhem juntos e a gente crie um ecossistema fortificado, coisa que não existe hoje.
Riscos
Presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Mizael Conrado de Oliveira apontou os riscos dos efeitos colaterais da promoção de jogos eletrônicos entre crianças e jovens com deficiência.
— A criança com deficiência [nesse caso] é incentivada a não fazer esportes. Nosso receio é que apoiar o desenvolvimento em massa do e-sports para as pessoas com deficiência possa segregar ainda mais essas crianças, que precisam de socialização E o esporte [não eletrônico] proporciona isso.
Já Giovanni Rocco Neto, representante do Ministério do Esporte, manifestou preocupação com o impacto das apostas esportivas nos jogos eletrônicos. Nesse ministério, ele está à frente da Secretaria Nacional de Apostas Esportivas e de Desenvolvimento Econômico do Esporte.
— Hoje as bets já recebem apostas nesses torneios específicos. No futebol as instituições são organizadas pelas entidades do setor para fazer a fiscalização, para que não haja manipulação de resultado. O Ministério do Esporte também tem essa preocupação em relação ao e-sport. Nós vamos precisar regulamentar isso.
Esporte
O senador Rodrigo Cunha, relator do projeto, informou que fará alterações no texto original proposta por Izalci Lucas. Ele defendeu a valorização dos jogos eletrônicos como esporte e a importância de oferecer incentivos ao setor.
— Muitas pessoas aqui dentro do Congresso Nacional têm uma visão dos games unicamente como forma lazer, e não é assim. Hoje nós temos [no setor] atletas, nós temos comissão técnica, nós temos patrocinadores, temos campeonatos com altas premiações, temos espectadores, temos torcedores. Há todas as características que os classificam como esportes.
Também participaram da reunião o senador André Amaral (União-PB) e o presidente do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), Paulo Germano Maciel.
O PL 6.118/2023 recebeu em agosto parecer favorável na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), e atualmente está sendo analisado na Comissão de Esporte (CEsp).
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Nacional
Lei da Profissão Multimídia provoca reação de sindicatos e divide o setor de comunicação
Nova legislação sancionada pelo presidente Lula reacende debate sobre acúmulo de funções, precarização do trabalho e futuro do jornalismo e do rádio
A sanção da Lei nº 15.325/2026, publicada nesta quarta-feira (7) no Diário Oficial da União, colocou novamente no centro do debate nacional o futuro das profissões da comunicação. A nova norma reconhece oficialmente a profissão de multimídia, permitindo que um único profissional atue na produção, edição e distribuição de conteúdos audiovisuais e digitais.
A medida, no entanto, gerou forte reação de jornalistas e radialistas, que veem na lei um risco direto à regulamentação das categorias. Já as emissoras de rádio e TV defendem a mudança como um avanço necessário diante da convergência tecnológica.
Sindicatos falam em prejuízo aos trabalhadores
Em nota conjunta, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os 31 sindicatos filiados e o Movimento Nacional dos Radialistas (MNR) afirmaram que a nova legislação representa um ataque direto às profissões regulamentadas, além de abrir espaço para insegurança jurídica e precarização das relações de trabalho.
Segundo as entidades, as atribuições previstas para o profissional multimídia já são garantidas, por lei, aos jornalistas e radialistas. A crítica central é que a nova norma permite o acúmulo de funções sem regras claras, o que pode beneficiar empresas e sobrecarregar os trabalhadores.
“As entidades representativas vão tomar as medidas legais necessárias para preservar as profissões frente a mais essa aberração legislativa,”diz o comunicado.
Outro ponto destacado é a ausência de diálogo durante a tramitação do projeto. Os sindicatos afirmam que não foram ouvidos e que a lei não define carga horária, exigência de registro profissional ou formação específica para a nova atividade.
A Fenaj também demonstrou surpresa com a sanção presidencial.
“Causa estranhamento que um governo com origem no movimento dos trabalhadores tenha sancionado a proposta sem vetos,”afirmou a federação.
Emissoras defendem modernização
Em posição oposta, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) avaliou a lei como um passo importante para adequar o setor às transformações tecnológicas.
Para a entidade, o reconhecimento da profissão de multimídia traz clareza a um mercado cada vez mais marcado pela atuação em múltiplas plataformas.
O presidente-executivo da Abert, Cristiano Lobato Flôres, destacou que a legislação acompanha a realidade atual da comunicação.
“A nova lei está alinhada à convergência tecnológica do setor, que exige atuação transversal, adaptação constante e atualização permanente dos profissionais,”afirmou.
O que muda com a nova lei
De acordo com a Lei nº 15.325/2026, o profissional multimídia pode ser de nível técnico ou superior e atuar na criação, produção, captação, edição, planejamento, gestão, programação, publicação e distribuição de conteúdos de som, imagem, vídeo, animação e texto em meios eletrônicos e digitais.
A legislação inclui atividades como:
gestão de sites, portais e redes sociais;
desenvolvimento de aplicativos, jogos e animações;
produção e direção de conteúdos audiovisuais.
A atuação é permitida em empresas públicas e privadas, incluindo emissoras de rádio e TV, produtoras de conteúdo, agências de publicidade e plataformas digitais. A lei também autoriza que profissionais de outras áreas assumam funções multimídia por meio de aditivo contratual, desde que haja acordo com o empregador.
Tema deve render novos embates
A sanção da lei expõe um embate antigo entre inovação tecnológica e direitos trabalhistas. Enquanto empresas defendem flexibilidade para acompanhar o mercado digital, trabalhadores alertam para o risco de perda de identidade profissional e de garantias históricas.
O debate promete avançar nos sindicatos, no Congresso e possivelmente no Judiciário — e a WebTV Mato Grosso segue acompanhando os desdobramentos de uma mudança que impacta diretamente quem vive da comunicação no Brasil.