Política Nacional
Debatedores pedem regulação dos vídeos sob demanda no Brasil
Política Nacional
O Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional (CCS) discutiu os desafios da regulação dos vídeos sob demanda no Brasil em audiência pública nesta segunda-feira (10). Os debatedores apontaram a necessidade, por exemplo, da instituição de mecanismos que garantam a competitividade desses serviços e criem regras de convivência entre as produtoras brasileiras e estrangeiras.
Esta foi a primeira reunião do Conselho em 2025. Ela foi conduzida pela vice-presidente do colegiado, Patrícia Blanco.
O chamado VoD (video on demand) é um sistema de conteúdo em vídeos em que o usuário pode escolher o que assistirá por meio de um catálogo e consumir esse conteúdo onde e quando quiser. O modelo é utilizado em plataformas como Netflix, YouTube e PrimeVideo, entre outras.
Para Paulo Alcoforado, diretor da Agência Nacional do Cinema (Ancine), os maiores desafios estão diante do Legislativo e do Executivo, a quem caberia estabelecer uma política clara. Ele alertou, porém, que todas as ações em busca dessa regulamentação devem ser promovidas de forma coordenada e sem prejuizo aos processos já implementados.
— É preciso entender o tamanho do desafio e como a regulação do vídeo sob demanda pode acontecer, porque vemos uma normalização dessa abordagem deficiente pelo Estado brasileiro. Não dá para normalizar a dificuldade que estamos tendo, embora não seja esta uma situação isolada do Brasil. A internet tem sido um ambiente onde se pratica muitos crimes, e essa situação precisa ser enfrentada urgentemente. A cada ano que passa isso se torna mais difícil.
Segundo o diretor, já existem atribuições e competências em leis que poderiam estar sendo observadas, mas elas ainda carecem de regulamentação. Ele citou como exemplo a necessidade de definição da competência dos órgãos reguladores, como a própria Ancine, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o Comitê Gestor da Internet no Brasil e os ministérios da Justiça e da Fazenda.
Marco civil
Mauro Garcia, presidente-executivo da Brasil Audiovisual Independente (Bravi) — associação que reúne produtores nacionais — defendeu a instituição de um marco civil do audiovisual brasileiro. Ele avaliou que a legislação relativa ao setor precisa ser mais abrangente e considerou que projetos de lei em tramitação no Congresso têm problemas como a possibilidade de investimento direto, ou seja, a permissão de aplicação de dinheiro público nas plataformas de streaming.
— Isso quer dizer, na prática, que estaríamos dando dinheiro para empresas estrangeiras ficarem com as patentes. Vale lembrar que regulação de VoD não se restringe à arrecadação, mas também se estende a direitos autorais, ao destaque para essas obras dentro dos catálogos, dentre outros pontos. Num país que tem a necessidade de gerar emprego e renda para as famílias, como o Brasil, estamos falando de um segmento que movimenta todas as cadeias: o transporte, as costureiras e diversas outras categorias que precisam de um audiovisual forte para poderem atuar.
Na opinião de Garcia, nenhum dos dois projetos que tramitam atualmente na Câmara dos Deputados atende às necessidades do setor, e o assunto mereceria ser tratado em uma nova proposição.
Uma das propostas é o PL 2.331/2022, de autoria do senador Nelsinho Trad (PSD-MS), já aprovada pelo Senado e enviada à Câmara. O texto prevê uma contribuição de até 3% sobre a receita bruta anual das plataformas de streaming em todo território nacional. Conforme o texto, os recursos seriam repassados ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). As empresas com receita bruta anual inferior a R$ 4,8 milhões ficariam isentas. Quando pelo menos metade do conteúdo oferecido pelas plataformas for nacional, o tributo será reduzido em até 60%. Os conteúdos jornalísticos ou estritamente educacionais também seriam isentos.
Acúmulo de debates
Joelma Gonzaga, secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, disse considerar “urgente” a necessidade de regulação do VoD e que a pauta já tem “um acúmulo de debates”. Para ela, o Brasil está atrás de outros países no assunto, mas vive “um momento propício”, já que o governo está engajado no tema.
— Regular com os interesses do Brasil é falar de um conjunto de políticas em favor do audiovisual que precisa espelhar todas as conquistas do setor ao longo de mais de 90 anos. É crucial que essa regulação preveja proteção de direitos autorais e patrimoniais, como já consta em nossas normativas, porque só com essa premissa garantiremos que a produtora participe dos resultados. Esse é o coração e a alma da política pública do audiovisual brasileiro.
Reunião ordinária
O Conselho de Comunicação tem outra reunião agendada na tarde desta segunda, a partir das 14h. A pauta será:
- Redação final da proposta de modificação do Regimento Interno do Conselho
- Proposta de audiência pública sobre DTV+
- Debate sobre o encerramento de programas de moderação de conteúdo em plataformas digitais
- Relatórios de andamento das comissões temáticas do conselho, comunicações dos conselheiros e participação da sociedade civil.
Sobre o CCS
O CCS é um órgão auxiliar do Congresso Nacional, que tem como atribuição a realização de estudos, pareceres, recomendações e outras solicitações que lhe forem encaminhadas pelo Senado e pela Câmara dos Deputados a respeito do tema da comunicação social no Brasil. É composto por 13 membros titulares e o mesmo número de suplentes,
Os membros do Conselho são eleitos em sessão conjunta do Congresso, dentre os nomes indicados por entidades representativas dos setores da comunicação social.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
Nacional
Lei da Profissão Multimídia provoca reação de sindicatos e divide o setor de comunicação
Nova legislação sancionada pelo presidente Lula reacende debate sobre acúmulo de funções, precarização do trabalho e futuro do jornalismo e do rádio
A sanção da Lei nº 15.325/2026, publicada nesta quarta-feira (7) no Diário Oficial da União, colocou novamente no centro do debate nacional o futuro das profissões da comunicação. A nova norma reconhece oficialmente a profissão de multimídia, permitindo que um único profissional atue na produção, edição e distribuição de conteúdos audiovisuais e digitais.
A medida, no entanto, gerou forte reação de jornalistas e radialistas, que veem na lei um risco direto à regulamentação das categorias. Já as emissoras de rádio e TV defendem a mudança como um avanço necessário diante da convergência tecnológica.
Sindicatos falam em prejuízo aos trabalhadores
Em nota conjunta, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), os 31 sindicatos filiados e o Movimento Nacional dos Radialistas (MNR) afirmaram que a nova legislação representa um ataque direto às profissões regulamentadas, além de abrir espaço para insegurança jurídica e precarização das relações de trabalho.
Segundo as entidades, as atribuições previstas para o profissional multimídia já são garantidas, por lei, aos jornalistas e radialistas. A crítica central é que a nova norma permite o acúmulo de funções sem regras claras, o que pode beneficiar empresas e sobrecarregar os trabalhadores.
“As entidades representativas vão tomar as medidas legais necessárias para preservar as profissões frente a mais essa aberração legislativa,”diz o comunicado.
Outro ponto destacado é a ausência de diálogo durante a tramitação do projeto. Os sindicatos afirmam que não foram ouvidos e que a lei não define carga horária, exigência de registro profissional ou formação específica para a nova atividade.
A Fenaj também demonstrou surpresa com a sanção presidencial.
“Causa estranhamento que um governo com origem no movimento dos trabalhadores tenha sancionado a proposta sem vetos,”afirmou a federação.
Emissoras defendem modernização
Em posição oposta, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) avaliou a lei como um passo importante para adequar o setor às transformações tecnológicas.
Para a entidade, o reconhecimento da profissão de multimídia traz clareza a um mercado cada vez mais marcado pela atuação em múltiplas plataformas.
O presidente-executivo da Abert, Cristiano Lobato Flôres, destacou que a legislação acompanha a realidade atual da comunicação.
“A nova lei está alinhada à convergência tecnológica do setor, que exige atuação transversal, adaptação constante e atualização permanente dos profissionais,”afirmou.
O que muda com a nova lei
De acordo com a Lei nº 15.325/2026, o profissional multimídia pode ser de nível técnico ou superior e atuar na criação, produção, captação, edição, planejamento, gestão, programação, publicação e distribuição de conteúdos de som, imagem, vídeo, animação e texto em meios eletrônicos e digitais.
A legislação inclui atividades como:
gestão de sites, portais e redes sociais;
desenvolvimento de aplicativos, jogos e animações;
produção e direção de conteúdos audiovisuais.
A atuação é permitida em empresas públicas e privadas, incluindo emissoras de rádio e TV, produtoras de conteúdo, agências de publicidade e plataformas digitais. A lei também autoriza que profissionais de outras áreas assumam funções multimídia por meio de aditivo contratual, desde que haja acordo com o empregador.
Tema deve render novos embates
A sanção da lei expõe um embate antigo entre inovação tecnológica e direitos trabalhistas. Enquanto empresas defendem flexibilidade para acompanhar o mercado digital, trabalhadores alertam para o risco de perda de identidade profissional e de garantias históricas.
O debate promete avançar nos sindicatos, no Congresso e possivelmente no Judiciário — e a WebTV Mato Grosso segue acompanhando os desdobramentos de uma mudança que impacta diretamente quem vive da comunicação no Brasil.